domingo, 10 de fevereiro de 2019

Utopía por Eduardo Galeano - "El derecho al delirio" con el texto recitado







“Mesmo que não possamos adivinhar o tempo que virá, temos ao menos o direito de imaginar o que queremos que seja.
As Nações Unidas tem proclamado extensas listas de Direitos Humanos, mas a imensa maioria da humanidade não tem mais que os direitos de: ver, ouvir, calar.
Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?
Que tal se delirarmos por um momentinho?
Ao fim do milênio vamos fixar os olhos mais para lá da infâmia para adivinhar outro mundo possível.
O ar vai estar limpo de todo veneno que não venha dos medos humanos e das paixões humanas.
As pessoas não serão dirigidas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem serão assistidas pela televisão.
A televisão deixará de ser o membro mais importante da família.
As pessoas trabalharão para viver em lugar de viver para trabalhar.
Se incorporará aos Códigos Penais o delito de estupidez que cometem os que vivem por ter ou ganhar ao invés de viver por viver somente, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca.
Em nenhum país serão presos os rapazes que se neguem a cumprir serviço militar, mas sim os que queiram cumprir.
Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas.
Os cozinheiros não pensarão que as lagostas gostam de ser fervidas vivas.
Os historiadores não acreditarão que os países adoram ser invadidos.
O mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas sim contra a pobreza.
E a indústria militar não terá outro remédio senão declarar-se quebrada.
A comida não será uma mercadoria nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos.
Ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão.
As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo, porque não haverá crianças de rua.
As crianças ricas não serão tratadas como se fossem dinheiro, porque não haverá crianças ricas.
A educação não será um privilégio de quem possa pagá-la e a polícia não será a maldição de quem não possa comprá-la.
A justiça e a liberdade, irmãs siamesas, condenadas a viver separadas, voltarão a juntar-se, voltarão a juntar-se bem de perto, costas com costas.
Na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque elas se negaram a esquecer nos tempos de amnésia obrigatória.
A perfeição seguirá sendo o privilégio tedioso dos deuses, mas neste mundo, neste mundo avacalhado e maldito, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro.”
Texto via Gilberto Godoy

sábado, 8 de setembro de 2018

Entrevista com Magda Soares



http://www.gestaoescolar.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/programa_aceleracao_estudos/reivencao_alfabetizacao.pdf

http://www.ufjf.br/virtu/files/2010/04/artigo-2a18.pdf

domingo, 29 de julho de 2018

É chocante a resignação do brasileiro


BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS
O português Boaventura de Sousa Santos foi o grande premiado na categoria Ciências Humanas e Educação do Jabuti, com seu livro Para um novo senso comum: a ciência, o direito e a política na transição paradigmática, primeiro volume da série A crítica da razão indolente (CortezEditora).
O prêmio é uma mostra da crescente influência desse sociólogo da Universidade de Coimbra no universo intelectual brasileiro. Boaventura, que na década de 70 passou cinco meses na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, para fazer sua tese de doutorado por Yale, já está com viagem marcada para o Brasil no próximo mês. De tanto visitar o país, é capaz de analisar como poucos brasilianistas sua realidade social. Mesmo assim, está chocado com a ameaça de racionamento de energia e de apagões. "O que mais me surpreende no Brasil é a falta de contestação social a essas coisas. Parece que hoje em dia os brasileiros aceitam quase tudo", critica. Segundo ele, a arrogância das classes dominantes brasileiras é tão grande que elas não precisam mais do consenso. "Basta-lhes a resignação. Num consenso, é necessário negociar. Na resignação, não há conflito. Isso é mau: em sociedades democráticas estarmos a contar com a resignação das pessoas para governar o país." Estrela do Fórum Mundial, realizado este ano em Porto Alegre, Boaventura acha que está na hora de as ciências sociais brasileiras se desumbigarem, olhando para o resto da América Latina e para Portugal, em vez de ficarem copiando franceses e americanos. "Quando a gente tenta imitar, imita sempre mal e com atraso."
CRISTIANE COSTA
- O senhor ficou ainda mais famoso no Brasil quando deu uma bronca no presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1995, em plena solenidade do doutoramento honoris causa em Coimbra. Desde então tem falado com ele?
- Sim, várias vezes. Fernando Henrique aceitou muito desportivamente o meu comentário. Meu texto foi, inclusive, publicado num livro em homenagem ao presidente. Mas temos que saber se as minhas previsões estavam certas ou não.
- E o que o senhor acha?
- Eu acho que estavam certas. Tenho acompanhado de perto a vida política e social de seu país. Atualmente, o que mais me surpreende no Brasil é a falta de contestação social a coisas como essa ameaça de apagão e racionamento de energia. Parece que hoje em dia os brasileiros aceitam quase tudo.
- Qual seu diagnóstico?
- Isso é muito negativo porque as pessoas ficam inseguras e quem está inseguro não tem capacidade de atuação política. Ficam muito preocupadas com o que vai acontecer amanhã ou depois, com os bifes que têm na geladeira, os filhos presos nos ascensores. Criar essa insegurança no cotidiano contribui, de alguma maneira, para despolitizar ainda mais as populações e para impedir que haja contestação social.
Representantes do governo chegaram a afirmar que não haverá contestação porque o brasileiro se acostuma com tudo.
- E é isso mesmo. A arrogância das classes dominantes brasileiras hoje é tão grande que elas não precisam do consenso das pessoas. Basta-lhes a resignação. Num consenso, é necessário negociar. Na resignação não há realmente conflito. Admite-se que as pessoas têm que se sujeitar e elas se sujeitam porque não há alternativa. Isso é mau: em sociedades democráticas, estarmos a contar com a resignação das pessoas para governar um país. Não fico surpreendido com o que diz o burocrata, mas com o fato de que, aparentemente, ele tenha razão.
- A esquerda estaria comendo mosca?
- Todo esse silêncio não é porque o brasileiro seja cordial, mas porque os partidos de oposição me parecem completamente desmobilizados para as lutas cotidianas, procurando apenas intervir nos interstícios e nas margens do sistema, com pequenas declarações, mas não mobilizando a população. Essa é uma luta que tinha todas as condições de criar aquilo que às vezes o próprio presidente diz: que não há oposição à altura dele. Aqui está realmente um motivo que afeta a todos os cidadãos.
- O senhor julga que o processo de despolitização é um fenômeno nacional ou global?
- Sem dúvida é um fenômeno mundial, que ganhou força na década de 80, mas também nacional. Aqui no continente, particularmente, nós tivemos transições feitas em nome da democracia, mas que não puseram em questão o modelo de sociedade que estava em vigor, de modernização sem participação. Há continuidades perturbadoras, como a modernização através de uma aplicação radical das terapias do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial - e o Brasil foi um dos que mais ortodoxamente seguiram a receita, sempre contando que o povo seja cordial, não resista, não faça contestação.
- E por que ela não acontece?
- A contestação mais agressiva sempre acontece nos momentos de expansão da economia. As pessoas precisam ter sua retaguarda assegurada. Agora, a insegurança é tanta que, quando ela entra no cotidiano, vira uma metáfora.
- De que o risco de apagão seria uma metáfora?
- O apagão é uma metáfora da falta de energia da sociedade. No fundo, não é apenas a energia elétrica que se apaga, são as pessoas que estão viradas para dentro, se apagando, quando fogem da participação.
- Seu livro premiado com o Jabuti fala desse descaso, não?
- A crítica da razão indolente retoma um conceito de Leibniz, que se insurgiu contra a idéia de que tudo é dado pelo destino e só nos cabe cumpri-lo. Se o que tiver de acontecer acontece independentemente do que fizermos, é preferível não fazer nada, não cuidar de nada e gozar apenas o prazer do momento. Com isso, não há emancipação social possível.
- Quando será lançado o segundo volume da série, aquele que trata mais diretamente do Brasil.
- No segundo semestre. O direito da rua: ordem e desordem nas sociedades subalternas é uma análise da ordem e do direito a nível local. Ele contém a íntegra de meu trabalho de doutoramento, em Yale, feito numa favela do Rio de Janeiro, junto com trabalhos realizados em Cabo Verde, Colômbia e Moçambique.
- Quanto tempo o senhor viveu no Brasil?
- Passei um ano, sendo que cinco meses na favela do Jacarezinho. Isso em 1970, um período muito difícil por causa da ditadura. Posso dizer que foi a primeira vez que vi o mundo real, da desigualdade, da exclusão social, mas também da dignidade das classes oprimidas. Meu objetivo era organizar uma pesquisa alternativa às duas visões que dominavam nas ciências sociais americanas. De um lado, as favelas eram tidas como antros criminosos ou então, sob uma ótica muito romântica, como um paraíso. O que procurei mostrar foi que essas comunidades tinham a sua ordem, o seu direito, que não era o oficial. Era engraçado, porque na época só os americanos faziam esse tipo de pesquisa. E as pessoas perguntavam qual era o meu negócio. Afinal, português tinha que querer montar um negócio, qualquer coisa de secos e molhados, não uma tese de doutoramento.
- E os demais volumes?
- O terceiro também está praticamente pronto e se chamará Os trabalhos de Atlas: regulação e emancipação na Redopolis. Ele mostra como a globalização dá origem a diferentes direitos, conhecimentos e poderes. O quarto volume, O milênio órfão: para um futuro da cultura política é uma reflexão mais profunda sobre a teoria política. Eles são desdobramentos de um grande livro, de 600 páginas, que publiquei nos Estados Unidos em 1985, Toward a new common sense: law, science and politics in the paradigmatic transition.
- Qual seu balanço do encontro de Porto Alegre, de que foi uma das estrelas?
- Acho que foi realmente um momento extraordinário de agregação de movimentos alternativos. Conseguimos demonstrar que o pensamento único não é único e que não éramos simplesmente contra a globalização - éramos a favor de uma globalização alternativa. Não estamos a pedir uma utopia, mas pequenas transformações que só têm um objetivo: tornar o mundo menos confortável para o capitalismo global. Também não queremos apenas criticar, mas apresentar alternativas.
- Como a globalização contra-hegemônica?
- A alternativa certamente não é fechar-se no espaço nacional. O momento atual tem como característica o fato de tudo se dar em termos de alianças globais: globais no topo, a globalização neoliberal, e globais na base, aquilo que se pode chamar de globalização contra-hegemônica.
- Outro conceito que o senhor gosta de usar é o de democracia de baixa intensidade. O Brasil é um exemplo?
- Esta caricatura de democracia de baixa intensidade que está a se ver não tem condições de sustentabilidade. Eu, que vivi durante alguns anos em período de fascismo, nunca critico a democracia por ser uma fraude, critico por ser pouca. Eu quero é mais. Quero no sistema político, nas famílias, nas fábricas, nas ruas, nas comunidades. Quero a democracia sem fim. A democracia hoje está delimitada a um espaço político do Estado.
- Qual a conseqüência disso?
- O conceito de democracia tornou-se totalmente compatível com o capitalismo. Não só compatível como virou sua outra face. Isso é uma coisa absolutamente nova. Os avanços democráticos foram sempre arrancados ao capital. A luta era por direitos econômicos e sociais, o significava tirar dos ricos para dar aos pobres. Mas o capitalismo é totalmente hostil à redistribuição. Por isso, só onde podia haver distribuição podia haver democracia - e portanto poucos eram países eram democráticos. Hoje, todos têm o dever de ser democráticos, se não ficam sem receber os fundos do Banco Mundial.
- Por quê?
- Porque o capitalismo conseguiu eliminar as virtuais capacidades redistributivas da democracia. Se elas não existem, a democracia deixa de ser um problema para se tornar fundamental ao capital, porque se torna sinônimo de um Estado fraco e legítimo. É disso que o capitalismo internacional precisa.
- Novamente qual seria a alternativa?
- Os sistemas alternativos de produção, as chamadas organizações econômicas populares. A produção feita de forma não capitalista, como as cooperativas, é uma diferença que está a emergir. Há também outras formas de comércio, o chamado comércio justo. O objetivo não é irmos para o livre comércio, free trade, mas para o comércio justo, o fair trade, que também é global.
- Como funciona?
- É um comércio em que as mercadorias são produzidas com um salário justo, em condições ecológicas equilibradas, em que os sindicatos podem efetivamente atuar. Seus produtos são realizados dentro dos parâmetros laborais mínimos. Podem eventualmente ser mais caros - agora detêm apenas 0,1% do mercado mundial -, mas é algo que está crescendo. Este ano, no México, será criado um selo de comércio justo. Esse também é um comércio global. Por exemplo, agora querem produzir umas camisetas de algodão orgânico, como no México não há, estão a importá-lo de uma cooperativa de índios do Peru.
- Seu livro conquistou o primeiro lugar na categoria Ciências Humanas e Educação do Jabuti. Mas o que se verifica normalmente é que nem a literatura nem as ciências sociais brasileiras e portuguesas se comunicam. O senhor é uma exceção, assim como Saramago. A que se deve isso?
- Seria muito fácil buscar as razões na história colonial e no processo de descolonização. Mas isso já foi há tantos anos, que já não faz sentido nenhum. Uma aliança entre as duas literaturas e as duas ciências sociais, trazendo para esse espaço as africanas, se beneficiaria de uma língua comum. Mas infelizmente não é assim. Para ter meus livros distribuídos no Brasil, tenho que os publicar duas vezes, numa editora portuguesa e numa editora brasileira. Até há pouco tempo, eu tinha que alterar o meu português, fazer quase que uma tradução, para ter meus livros publicados no Brasil. Felizmente, este meu último livro, que está a entrar na terceira edição, foi publicado em português de Portugal, ao contrário de Pela mão de Alice.
- Por que o Brasil não tem olhos para Portugal?
- Acho isso inexplicável. Quando venho ao Brasil, fico ainda hoje surpreendido com a intensidade com que se discutem os autores franceses e americanos. Estudam-se esses autores como se eles tivessem estado a trabalhar com a realidade deste país, quando não foi este o caso. Temos uma grande responsabilidade: criar teorias, adaptadas a nossos países, tal e qual eles fizeram. Em relação à cultura francesa, que está hoje em recessão, os brasileiros são mais papistas do que o papa. E o mesmo em relação aos americanos, ficam por aí discutindo paradigmas em crise. Quando a gente tenta imitar, imita sempre mal e com atraso.
- A cultura brasileira também se comunica muito pouco com a do resto da América Latina.
- É engraçado. O Brasil tem uma plêiade de intérpretes magníficos, como Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Celso Furtado, Darcy Ribeiro. Mas só Darcy e Manuel Bonfim olharam para o continente. A maioria olhou para o Brasil e fechou-se. É preciso desumbigar um pouco as ciências sociais brasileiras. Sem grande retórica, sem grandes declarações de "países irmãos". Antigamente, meus colegas, quando iam de férias para a Europa, nem paravam em Lisboa, iam direto para Paris. Agora já vêm a Coimbra, dão seminários, e depois seguem para lá. Já é alguma coisa.
- Mas esse desconhecimento é de mão dupla: a obra dos cientistas sociais brasileiros também não tem grande repercussão em Portugal.
- Esse problema de ter que editar o livro duas vezes, uma no Brasil outra em Portugal, atrapalha muito. Mas está a se criar uma aproximação. Fundei em 1990 a Associação Luso-Afro-Brasileira de Ciências Sociais, cujo sexto congresso acontecerá próximo ano no Iuperj. É uma forma de aproximar as nossas cabeças sem essa retórica de países irmãos.
09/11/2007

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Museu de La Memória, Uruguay.

"Primeiro mataremos todos os subversivos, logo mataremos os seus colaboradores, depois os seus simpatizantes, em seguida os que permanecem indiferentes e finalmente os tímidos."
General Ibérico Saint-Jean


E é assim que começa a viagem sobre a história da instituição da ditadura do governo militar.




Após os vídeos, leituras de textos, imagens e objetos, seguimos à sala da resistência coletiva e da repressão.



Na última sala não tiramos foto, neste espaço há  exposição de fotos tiradas durante as  manifestações populares, dos movimentos a favor da redemocratização, dos líderes dos movimentos, do povo e enfim,  do fim da Ditadura Militar. 

No espaço externo há, além de referências sobre a ditadura na América Latina, outras memórias:











segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Relações Étnico-Raciais - Prof°. Dr. Kabengele Munanga



https://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2009/09/Uma-abordagem-conceitual-das-nocoes-de-raca-racismo-dentidade-e-etnia.pdf

https://www.geledes.org.br/kabengele-munanga-uma-abordagem-conceitual-das-nocoes-de-raca-racismo-identidade-e-etnia/


http://www.acordacultura.org.br/sites/default/files/kit/MODOSBRINCAR-WEB-CORRIGIDA.pdf

"A diversidade e a multiplicidade existem em cada um/a de nós e nos grupos que constituem a humanidade. Estes grupos são fundamentais para a construção de uma nova humanidade, que o trabalho com a EDUCAÇÃO INFANTIL, com os recém-chegados seres humanos de zero a seis anos, exige. Uma humanidade sem racismo, que preza o respeito, a convivência e o diálogo. Em se tratando de uma educação para o amanhã, tecida no hoje, com o legado do ontem, eu diria, UMA HUMANIDADE DO AMOR."
Azoilda Loretto da Trindade



terça-feira, 28 de março de 2017

Representação e idosos nos contos.

Interpretação das idades da vida, um conto transcrito pelos irmãos Grimm. 

     Deus havia destinado 30 anos de vida ao homem e a todos os animais; o asno, o cão e o macaco conseguiram que ele cortasse 18 anos, 12 anos e 10 anos do número fixado, pois uma vida longa lhes parecia penosa. O homem, menos sábio que os animais pediu um prolongamento: conseguiu os 18 anos do asno, os 12 do cão e os 10 do macaco: "tem, portanto, 70 anos de vida". O homem não entendeu que a longevidade teria que ser paga com  a decrepitude. 
     Os trinta primeiros anos são seus, e passam rápido...Chegam, então, os 18 anos do asno, durante os quais ele tem que carregar nos ombros fardos e mais fardos; é ele que fornece ao moinho o trigo que alimenta os outros...Depois, vêm os 12 anos do cão, durante os quais não faz outra coisa senão reclamar, arrastando-se de um canto a outro...Passado esse tempo, não lhe restam mais, para terminar, do que os 10 anos do macaco. Não tem mais a cabeça boa, fica meio esquisito, faz coisas estranhas   que provocam riso  a zombaria de crianças. 
     Assim, se a velhice do homem é mais longa e mais penosa do que a dos animais, é ele o responsável por isso: condenou-se a si próprio, por sua irrefletida avidez. (século XlX)

Como os idosos,especialmente as mulheres, são representados nos contos destinados às crianças? 
É ético relacionar valor/caráter ao etário, no caso, especificamente ao adulto idoso?  É justo continuar usando imagens de idosos para representar o maléfico? 
Se no passado a longevidade era coisa rara, hoje, conforme o Relatório Mundial de Saúde e Envelhecimento, cresce o  número de pessoas com mais de 60 anos em nosso país. 
Em uma época de crise econômica e política, onde não temos mais certeza sobre o futuro, uma coisa é certa: o Brasil está envelhecendo, e já é tempo de pensarmos novos valores democráticos, onde sejam incluídos idosos, jovens, pessoas de diferentes etnias, gêneros e com diferentes habilidades. 






domingo, 13 de novembro de 2016

A lógica das crianças



Poeminha em Língua de brincar -  Manuel de Barros 
Ele tinha no rosto um sonho de ave extraviada.
Falava em língua de ave e de criança.
Sentia mais prazer de brincar com as palavras
do que de pensar com elas.
Dispensava pensar.
Quando ia em progresso para árvore queria florear.
Gostava mais de fazer floreios com as palavras do que de fazer ideias com elas.
Aprendera no Circo, há idos, que a palavra tem
que chegar ao grau de brinquedo
para ser séria de rir.
Contou para a turma da roda que certa rã saltara
sobre uma frase dele
E que a frase sem arriou.
Decerto não arriou porque não tinha nenhuma
palavra podre nela.
Nisso que o menino contava a estória da rã na frase
Entrou uma Dona de nome Lógica da Razão.
A Dona usava bengala e salto alto.
De ouvir o conto da rã na frase a Dona falou:
Isso é língua de brincar e é idiotice de
criança
Pois frases são letras sonhadas, não têm peso,
nem consistência de corda para aguentar uma rã
em cima dela
Isso é Língua de raiz – continuou
É Língua de faz de conta
É Língua de brincar!
Mas o garoto que tinha no rosto um sonho de ave
Extraviada
Também tinha por sestro jogar pedrinhas no bom
senso.
E jogava pedrinhas:
Disse que ainda hoje vira a nossa tarde sentada
sobre uma lata ao modo que um bem-te-vi sentado
na telha.
Logo entrou a dona Lógica da Razão e bosteou:
Mas lata não aguenta uma tarde em cima dela, e
ademais a lata não tem espaço para caber uma
Tarde nela!
Isso é Língua de brincar
É coisa-nada
O menino sentenciou:
Se o Nada desaparecer a poesia acaba.
E se internou na própria casca ao jeito que o
jabuti se interna.

sábado, 22 de outubro de 2016

Entrevista com Magda Soares - Parte I



http://www.plataformadoletramento.org.br/em-revista-entrevista-detalhe/393/magda-soares-discute-como-mediar-o-processo-de-aprendizagem-da-lingua-escrita.html


domingo, 16 de outubro de 2016

As mais mais, de Mario Quintana.




Da felicidade
Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura.
Tendo-o na ponta do nariz.

                                                              xxxx


Da discrição
Não te abras com teu amigo
Que ele outro amigo tem.
E o amigo de teu amigo
Possui amigos também...

                                                               xxxx


Incomunicabilidade 

Querer que qualquer um seja sensível ao nosso mundo íntimo
 é o mesmo que estar sentindo um zumbido no ouvido 
e pensar que o nosso vizinho de ônibus o possa escutar.

                                                                    xxxx





2005
Com a decadência da arte da leitura, daqui a trinta anos os nossos romancistas serão reeditados exclusivamente em histórias em quadrinhos...
A grande consolação é que jamais poderão fazer uma coisa dessas com os poetas.
A poesia é irredutível. 

                                                                         xxxx

                                                                                                                     Banksy
Um velho tema
Há mortos que não sabem que estão mortos - eis um velho tema desses relatos fantásticos  ou fantasmais que a gente lê sem cansar nunca. 
Como se não houvesse coisas muito mais impressionantes em nosso próprio mundo!
Uma história, por exemplo, que começasse assim: há vivos que não sabem que estão vivos...

                                                                   xxxx


Perversidade
Alguém me disse, com a voz embarcada, que agora, sim, estava convencido da existência de Deus, porque os trabalhos psicografados de Humberto de Campos eram evidentemente dele mesmo.
- Mas isso não prova a existência de Deus...prova apenas a existência de Humberto de Campos.

                                                                 xxxx


                                                                    
Opção
É preferível o oratório à oratória: pelo menos assim, não incomodarás o próximo.

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Urbanística
Essas vilas de arrabalde com seus jardins bem arrumados, bonitinhos, comportadinhos...Mas por que não a liberdade de um matagal selvagem? Por que não deixam ao menos a natureza ser natural?

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Da verdadeira possessão diabólica
Ele não é propriamente o Espírito do Mal. O mal tu bens sabes que já tem praticado, ao correr da história, com mais sagrados desígnios. E o que assinala e caracteriza os servos do Diabo, neste nosso inquieto mundo, não é especificamente a maldade: é a indiferença. 


                                                                            xxxx



As Três Marias
As únicas estrelas que eu conheço no céu são as Três Marias. 
Três Marias é um apelido de família...o nome delas é outro, sabem como é a coisa: 
um desses nomes roubados a mitologias ultrapassadas, com que costumam exorcizar as estrelas.
 Uns nomes que já nasceram póstumos...
Só o que sabem é enumerar, mapear, coisas assim - trabalho digno de robôs.
Olhem, Marias, acheguem-se, escutem: - Vocês foram catalogadas. 
Ouviram bem? Ca-ta-lo-ga-das!
O consolo é o povo, que ainda diz ignorantemente: "Olha lá as Três Marias!".

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Diagnóstico errado
Não tentes tirar uma ideia da cabeça de outrem porque, examinando bem, verás que em geral não se trata de ideias, mas de convicções. São inextirpáveis. E a causa única de todas as guerras - políticas ou religiosas, paroquianas ou internacionais.

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Não basta saber amar
Neste mundo, que tanto mal encerra,
não basta saber amar,
mas também odiar,
não só servir a paz, mas também ir para a guerra.
Seguiremos assim o próprio exemplo de Jesus, que tanto amor pregou na Terra...
quando Ele,
num ímpeto de cólera,
a relhaço expulsou os vendilhões do templo!

                                                                                xxxx

                                                                               Acervo da biblioteca escolar/FNDE/2009